Quarta, 20 de Setembro de 2017
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Prezados senhores; Já não estou jovem, porém, algumas vezes, gosto de “navegar” pela Internet “à cata” de coisas às quais as pessoas da minha idade dão mais importância. Numa dessas minhas “incursões” encontrei este belo “site” de vocês, o www.sentandoapua.com.br. Meus sinceros parabéns pela magnífica pesquisa e brilhante narrativa dos registros históricos sobre a nossa participação na 2a Guerra.

Por oportuno, ao ler sobre os comandantes dos submarinos nazistas que afundaram os nossos navios mercantes desarmados, gostaria de referenciar que meu pai, José Fernandes Guimarães, (29/09/1885 a 06/04/1955), que era Comandante da nossa Marinha Mercante, fez várias viagens (durante o período da guerra), ao comando de alguns de nossos navios, que na época transportavam passageiros e carga, e, em duas dessas viagens, conforme ouvi direto dos seus próprios relatos (e também os da minha mãe) quando eu era ainda criança (mas me lembro muito bem!), ele, tendo desatracado do porto daqui da nossa cidade, Belém, Pará (onde nasci e sempre morei), ao sair da barra ao Norte de Belém, já na foz do grande rio Amazonas, navegando com o seu navio desarmado transportando passageiros e carga em direção a portos do Sul do Brasil, foi torpedeado (naquelas duas viagens) por um submarino nazista, que muitos anos depois do falecimento do meu pai eu vim saber se tratar do malfadado “U-156”, o qual, como vocês muito bem relatam, era comandado pelo jovem e covarde nazista Capitão-de-Corveta Werner Hartenstein (Que Deus se apiede de sua alma!).

O submarino costumava ficar covardemente escondido, na altura da costa atlântica paraense logo depois da embocadura do rio Amazonas, no rumo da costa do Maranhão, onde o tráfego marítimo brasileiro era e ainda é constante. Tocaiava os nossos mercantes que, desarmados, eram presas fáceis. O covarde Werner Hartenstein mantinha o “U-156” quase sempre submerso, pois devia ter pavor dos aviões “Catalina” baseados no aeroporto de “Val-de-Cães”, aqui em Belém, Pará. Graças a Deus, em ambas as oportunidades o meu pai conseguiu escapar ileso com seu navio, certamente para desespero daquele finado jovem nazista patife. O covarde nazista não sabia que o meu pai, o Comandante José Fernandes Guimarães, era profundo conhecedor das características especiais das águas do Amazonas, que ao encontrarem o Atlântico fazem os canais de navegação mudar constantemente de posição, dificultando a navegação, principalmente para quem não tem experiência nestas águas.

O meu pai me dizia: “Ordenei ao meu maquinista para que desse toda força avante!”, como ele falava em sua linguagem de marinheiro. E mais: “Eu mesmo assumi o timão, e girei o leme rumo a terra, para retornar a Belém!”. Hoje entendo que ele, espertamente, buscava também navegar em águas rasas, bem junto à costa, para que o submarino desistisse de persegui-lo, pois não poderia navegar emerso, correndo o risco de ser bombardeado pelos "Catalina" da nossa gloriosa Força Aérea Brasileira. Papai falava do pânico que os passageiros ficaram — principalmente as mulheres e crianças, que choravam muito, pois pensavam que iam afundar com o navio —. Eu, ainda criança, ouvia muito atento. Ficava impressionado e triste, porque ficava com pena das crianças.

Lembro, também, que o papai muitas vezes comentava com a minha mãe sobre a sua preocupação ao receber alguma ordem para comandar navios cuja rota passasse a altura da cidade de Salinas (hoje chamada Salinópolis, ou melhor, Estância Hidromineral de Salinópolis, na costa paraense), pois ele dizia que por ali alguns dos nossos mercantes, mesmo com a nossa bandeira desfraldada, haviam sido torpedeados e afundados, tendo morrido muitos brasileiros. Hoje sei que ele estava certo! Cabe ressaltar que a experiência do meu pai nas águas da nossa costa Norte, e especialmente nas do nosso grande Rio Amazonas, o fazia ter como uma espécie de “ponto de honra” o fato de jamais permitir que um “Prático” subisse ao seu navio, o que até hoje é indispensável (mesmo nos mais modernos transatlânticos) para navegar no traiçoeiro Rio Amazonas.

Esclareço que “Prático” é como se chama por aqui o marítimo experiente, que ocupa o comando do navio substituindo o Comandante quando o barco adentra na foz do Amazonas. Vale colocar que na cidade de Salinópolis, PA, existia (ou ainda existe, não sei mais, pois há bastante tempo não tenho ido mais àquela cidade balneária, de tão belas praias) um “posto” — na verdade, uma casa — dos Práticos, que vão, em uma lancha rápida, até os navios, os quais os aguardam fundeados ao largo da costa, e os dirigem para navegar nos canais do Rio Amazonas, desde a sua foz.

Fiz-lhes este relato, acima, como uma espécie de homenagem, não apenas a vocês, que criaram e mantém este belo “site”, mas, e também, pela memória do meu pai, um dos inúmeros anônimos e heróicos navegadores brasileiros daqueles tempos de guerra. Assim, se possível, peço-lhes que façam uma pequena ressalva no texto do “site”, pois, quando se referem na biografia do nazista Werner Hartenstein: “Obs.: Afundou 20 navios totalizando 92.205t. Danificou 4 navios totalizando 20.001t.”, na página http://www.sentandoapua.com.br/joomla/content/view/204/ , omitem aqueles nossos navios que ele torpedeou solertemente, porém os seus bravos Comandantes brasileiros conseguiram escapar incólumes, como foram estes dois casos que relatei, ocorridos com os navios capitaneados pelo Comandante da Marinha Mercante Brasileira, o paraense José Fernandes Guimarães, o meu pai!

Um abraço fraterno do amigo Ademir Scardino Guimarães

P.S. Declino o nome dos navios porque a memória, às vezes, já fica a desejar. Desculpem!